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Sobre sombras

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Não me levem muito a sério.

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Não me levem muito a sério.

04
Jul24

No norte o carvalho é uma vírgula, na Madeira, um utensílio

Oi galera. É melhor não continuar com o português do Brasil porque posso ser processado por apropriação cultural. Não corro o risco de ser “cancelado”, quase ninguém lê esta tristeza de blog, quase ninguém vê o meu instagram, sou um coitadinho desconhecido, ninguém quer saber de mim. Menos tu que lês isto, claro, muito obrigado por estares desse lado e permitires-me partilhar contigo coisas importantes para mim.

Houve três pessoas diferentes que recentemente me alertaram que digo muitas asneiras. Sou natural do distrito do Porto, onde o carvalho é uma vírgula e vivo na Madeira onde o caralhinho não é calão, é um utensílio. Em minha defesa, os ambientes nos quais estou inserido são propícios a que eu fale mal. Bom, na verdade, as palavras que utilizo estão presentes no dicionário, portanto, não estou propriamente a dizer barbaridades. Manuel Maria Barbosa du Bocage (admitam, leram o du com um sotaque francês) escrevia poemas com palavras inapropriadas e é atualmente considerado um poeta importante na nossa história. Porque não soltar uns impropérios se o contexto for adequado?

 

Obviamente que não vamos estar num funeral de um tio-avô nosso e dizer “foda-se o tio-avô está mais azul do que o normal parece que o estão a asfixiar enquanto lhe vão ao cu”, nem vamos estar num transporte público a falar ao telemóvel “aquela gaja meteu-me um nojo, nem acreditas o que ela me disse, apetecia-me dizer-lhe para ir para a puta que a pariu, vaca do caralho” e nem me passaria pela cabeça ao falar com a avô da minha companheira, que já tem quase noventa anos, dizer frases como “Portugal quase que ia com a piça contra a Eslovénia, não foi? Se não fosse o Diogo Costa a defender aquilo lá íamos com o caralho! Merda de treinador, merda de jogadores que não jogam nada, tudo uma merda, tivemos foi uma sorte do caralho, não acha?”.

E eu não acho que diga assim tantas asneiras. Quando estou mais zangado, ou cansado, ou frustrado, talvez tenha menos filtro e pense menos no que vou dizer, então saem uns vocábulos mais esotéricos, mas de forma geral, julgo ser equilibrado. Pode ser uma questão cultural, isso até faz sentido, estando mais habituado a ter o carvalho na boca como típica pessoa do Norte, para mim está normalizado ouvir calão, mas para pessoas de regiões diferentes pode não ser aceitável. Ou então vai simplesmente de pessoa para pessoa, todos temos personalidades distintas, não há ninguém exatamente igual. Na verdade, o mais correto até deveria ser evitar dizê-las a não ser que esteja sozinho, ou em casa. Posso ofender alguém, ou ser mal interpretado, ou até passar uma má imagem. Por outro lado, por que razão deverei eu fugir das minhas origens?

Acho que há falta de genuinidade atualmente, temos constantemente interações com os outros através de máscaras, não dizemos o que nos vai na alma, dizemos o que achamos que é adequado à situação, agimos de acordo com o socialmente correto. Que se foda o socialmente correto. O objetivo deste espaço é eu despejar o que me apetece e fazer com que vocês se riam, que reflitam, que me contrariem, que pensem. Estou farto de ouvir falar de assuntos que não interessam a ninguém, eu gosto de pensar sobre as coisas, de questionar, de ouvir perspetivas diferentes. Já estou a divagar. O tema aqui é: calão, portanto concentra-te Miguel, volta ao tema. Ainda estás aqui a ler? Não te fartaste? Espetáculo.

Um amigo uma vez disse-me algo que me marcou. Não foi exatamente assim, mas foi algo do género “O humor está no inesperado”. Ou seja, uma estratégia forte para fazer comédia é dizer algo completamente oposta ao que as pessoas esperavam que saísse. Ao lerem este texto, esperavam que eu fosse fazer uma piada de necrofilia com um familiar? Esperavam que depois de eu receber alertas de que deveria evitar dizer asneiras fosse dizê-las várias vezes? Talvez sim e se for o caso espero que levem com a quinta pata do cavalo nas trombas. Dizer asneiras tem piada, não me venham com merdas. É uma espécie de fuga ao nosso quotidiano sério. Todos temos responsabilidades, porcarias que nos ocupam a mente, demónios interiores contra os quais temos de lutar, obrigatoriedades a cumprir, contas a pagar, problemas para resolver. É um alívio poder parar isso durante um bocado nem que seja para meditar, respirar fundo e gritar “que se foda esta merda toda!”. Sabe bem, experimentem.

Para terminar, os meus pais vão foder-me a cabeça ao ler isto, não foi assim que me educaram. O meu pai em almoços ou jantares de família perguntava sempre se podia falar mal antes de o fazer. E só depois de ter autorização é que dizia “foda-se”. Assim é que está certo, pede-se permissão para dizer barbaridades e só depois das pessoas aceitarem é que se prossegue. Se os criminosos fizessem isso viveríamos num mundo melhor. Posso cometer um furto neste estabelecimento? Não, não pode. Sim senhor, muito agradecido pelo seu tempo e até à próxima ó filho de uma grande puta.

“Vai cagar o mestiço e não vai só;

Convida a algum, que esteja no Gará,

E com as longas calças na mão já

Pede ao cafre canudo e tambió:

 

Destapa o banco, atira o seu fuscó,

Depois que ao liso cu assento dá,

Diz ao outro: «Oh amigo, como está

A Rita? O que é feito da Nhonhó?

 

«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?

Não me darás noticias da Russu,

Que desde o outro dia inda a não vi?»

 

Assim prosegue, e farto já de gu,

O branco, e respeitavel canarim

Deita fóra o cachimbo, e lava o cu.”

Soneto da cagada, Bocage

 

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