Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sobre sombras

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Não me levem muito a sério.

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Não me levem muito a sério.

14
Jun24

Efervescência de cuspe

Olá a tolos. Como estão? De onde leem esta publicação? Em que dispositivo? Estão no sofá no telemóvel, todos tortos e ajeitaram-se ao ler isto? Ou estão a fingir que trabalham, no escritório? Talvez estejam a enviar um fax, na sanita, curvados de mão no queixo, a puxar, a puxar, a puxar, ou a empurrar, depende da perspetiva.

Depois desta introdução fenomenal, venho falar-vos de um tema que me atormenta: inaptidão social. Admito, não sou a pessoa mais extrovertida socialmente, mas também não sou propriamente introvertido. Sou tipo o Quarta-Feira do Rabo de Peixe, algo ali no meio. No entanto, já tive os meus momentos estranhos em que só me apetecia esconder debaixo de uma pedra, como os insetos. Às vezes quando era criança pegava em pedras num terreno perto da casa da minha tia, na qual passei a maior parte da infância, e estava aquela porcaria cheia de bicharada. Era onde eu gostava de estar para fugir à vergonha nestas situações.

 

No outro dia fui com a minha sogra comprar um conjunto de mesa e cadeiras para a varanda e uma espreguiçadeira. A espreguiçadeira foi usada umas três vezes, no próprio dia para experimentar, e agora está encostada à parede do meu escritório. Foi um Domingo bem passado, almoçarada com a família e depois gastar dinheiro em merdas que talvez sejam usadas uma vez por ano. Se o meu eu com dezoito anos soubesse que o Domingo à tarde foi parcialmente passado a comprar artigos para o lar ia ficar assustado e marcaria de imediato uma jantarada num restaurante rasca no Porto para apanhar uma farda com os amigos. Bom, depois de experimentar a espreguiçadeira (até há uma fotografia na qual pareço um pai de família deitadinho, com cara de sono) lá fui à caixa pagar. Encontrei uns vizinhos e cumprimentei-os. Entretanto, estava concentrado a falar com a senhora da caixa sobre o cartão da loja e a minha sogra diz “Os teus vizinhos estão-se a despedir”. Como estava com o cartão de crédito na mão, olho para trás e vejo-os a dizerem-me adeus. Aceno, de cartão na mão, e voou tudo. O cartão, a mão, o braço e a minha dignidade. Riram-se os vizinhos, riu a minha sogra, riu a funcionária da loja, ri-me eu, rimos todos. Tudo a rir deste nabo do caralho. Todo desajeitado, lá apanhei o cartãozinho e voltei à minha vida. Sim, sou o tipo de pessoa que às vezes usa diminutivos, crucifiquem-me.

Perto de minha casa há uma padaria e uma mercearia. Dá jeito para ir comprar merdas de desenrasque, ou coisas que às vezes faltam ora porque não havia no supermercado, ora porque de repente a minha namorada pede-me cerejas da Argentina. “Estás grávida?” perguntei eu na minha cabeça, claro, para não levar dois socos e dormir no sofá. Sim, sim, amor, já vou buscar-te papaia do Senegal. Fui comprar pão, e estava um indivíduo sentado próximo do balcão. Esperei um minuto e chegou uma funcionária a perguntar o que eu queria. “Dois papos-secos”, disse este vosso amigo. Ao proferir a primeira letra da palavra papos-secos (não sei se disse papos-secos, ou “papo-secos”, descobri que o plural da palavra era papos-secos ao escrever este texto) houve uma reação química na minha boca, como quando se mistura vinagre com bicarbonato de sódio. Uma efervescência de cuspe que uma pessoa até ouve a saliva a sair da boca. Não sei se foi coincidência ou se de facto acertei no alvo, mas o homem que estava próximo do balcão levou a mão à testa. Será que limpou betume com o meu ADN ou simplesmente coçou-se ou limpou suor, ou outra merda qualquer? Nunca saberei a resposta, paguei e fui-me embora muito rápido, qual medalhado de ouro nos cem metros das Olimpíadas. Continuo a ir à padaria, que remédio, mas ponderei nunca mais lá pôr os pés e passar a comprar pão noutro sítio, ou nunca mais comer pão, o que fosse mais fácil.

Para quem lê o texto e identifica-se com estas situações, #tamujunto, não estão sozinhos, há um leque de malta que se atrapalha todo no dia-a-dia e depois fica na cama a remoer. “E tu és uma lagosta! Foda-se, que resposta perfeita que eu podia ter dado!” Pois Sérgio, agora já não adianta porque a conversa que tiveste com a gaja do 9ºC já foi há dezassete anos.

Interessantes são as conversas de circunstância quando se encontra o vizinho no parque de estacionamento ou no elevador. Olá, boa tarde, tudo bem? É, ele é muito engraçado, chama-se Bali. Sim, sim, come merda da relva. De cão e de gato, com sal, pimenta, orégãos ou pimentão doce, não é esquisito. Calcar poios já não o agrada, que nojo, ficar cheio de bosta nas patas. Só tenho o Bali por causa disso, há sempre assunto para conversar se encontrar alguém. Olham mais para o cão do que para o meu cabelo recesso quando não me apetece tomar banho antes de o passear.

Chegámos ao fim. É triste, eu sei, foi bom enquanto durou. Se praticassem atenção plena teriam desfrutado do processo de ler este texto em vez de acabarem e quererem mais. Esta sociedade está perdida. Comentem com histórias das vossas situações sociais desajeitadas, estou curioso para lê-las.

Beijinho no focinho e até à próxima publicação.

 

2 comentários

Comentar post

Perfil

foto do autor

Contactos

Favoritos

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D